Depois de um longo período de ausência, venho comunicar a história dos fatos que acarretaram meu sumiço, e acreditem: é bastante doloroso e revoltante.
Todos já foram a um aniversário de pobre, certo? Sim, mas talvez nunca tenham parado pra pensar o quanto pode ser perigoso! Não pela questão das pessoas, ou do que pode ocorrer na festa, mas pela "gastronomia exótica".
Você está bem andando na rua, e encontra a "Creidineuza", a chata da manicure da sua mãe, que resolve puxar assunto e fala tão rápido como um muçulmano rezando. Você só fica "aham, aham", e a mulher nada de calar a boca. Aí, no final, ela diz "dexo ir lá, tenho que busca ur minino nas escola! Sábado é a festinha de _____ane, vai tê um bolinho, passa lá!"
Meio com o pé atrás, a gente aceita o convite, e resolve ir na festa numa boa. Sabendo que é festa infantil, compra um presente bacana, vai lá pra dar uma passadinha e pronto. Porém, o constrangimento já começa quando você chega no lugar com um embrulho maior e 029384028493092 crianças vem te receber querendo pegar o presente - e você nem sabe quem é o aniversariante, então tem que proteger o pacote como se fosse um entregador de pizza na etiópia (!). Um vexame! Daí, a "Creidineuza" vê que você chegou
e, percebendo seu sufoco, te manda entrar e fala pra botar o presente na caixa perto da porta.
e, percebendo seu sufoco, te manda entrar e fala pra botar o presente na caixa perto da porta.
Uma caixa gigantesca de TV 29 polegadas é usada pra guardar os presentes, mas eu tomei um baita susto quando o vi o que tinha dentro - ou melhor, com a falta de coisas dentro. A julgar pela quantidade de pessoas da festa, a caixa não seria suficiente para agregar todos os pacotes dos convidados, mas a realidade era outra: aquilo estava mais para uma caixa de brindes de pescaria de festa junina beneficente.
Nos fundos da casa está rolando o aniversário-churrasco. O vento forte fazia a fumaça parecer uma bomba de gás lacrimogênio, e do lado da churrasqueira vejo aquela "nem" com a camisa dobrada pra cima fritando salgadinho com o cabelo todo molhado de suor. Fiz uma nota mental para não comer nada daquelas frituras.
O salgadinho passa na mesa para servir. Se você quiser comer, vai ter que pular como jogador de basquete, porque ele é servido a 2,5 metros de altura da vista dos convidados, a cada cerca de 20 minutos. Mas podia ter sido pior, tem festas que nem dá tempo de servir, porque as tiazonas gordas ficam lá sentadas mandando as crianças encherem pratinho direto do fogão e levar pra mesa. Ou seja, não espere servir. O que chegou na minha mesa estava tão engordurado que o guardanapo se desintegrava, e vinham só aqueles "pastéizinhos de carne" - que a carne mandou lembranças.
E o churrasco? Só chegava asa de frango e coração de galinha. As "carnes" de verdade não saíam da tábua de corte, porque o churrasqueiro - marido da "Creidineuza" - virava tudo na boca antes de servir, e deixava só as pelancas cortadas, servidas do mesmo jeito dos salgadinhos a 2,5 m de altura.
O refrigerante é um capítulo a parte. A dona da festa reclamava que eu não estava comendo nada, perguntou se eu estava triste ou doente, etc, mas eu disse que não estava com fome, que já tinha jantado em casa. Mas ela insistiu tanto, que para não fazer desfeita, resolvi aceitar uma bebida. A carta de vinhos de refrigerante era tão extensa, que eu me impressionei por não ter reconhecido o nome de nenhum. E como
eu não conhecia, era inútil escolher, então disse "pode ser esse" após ouvir o último nome.
eu não conhecia, era inútil escolher, então disse "pode ser esse" após ouvir o último nome.
Eu não olhei o rótulo, mas mesmo tomando apenas meio copo - era a medida padrão para todos poderem beber - tenho certeza que era um novo refrigerante chamado "Dolly Fukushima", especialmente feito com resíduo nuclear pra dar aquele brilho especial. Foi bater no estômago e provocar uma úlcera. A partir dali minha cabeça começou a rodar, eu comecei a suar frio, e só lembro de ver a mulherada com aqueles shortinhos horríveis de bolso pra fora tirando foto na frente da mesa de toalha crepom e do painel da Cinderella apagada.
Pra piorar meu enjôo, as músicas da festa pareciam conspirar contra mim. O "DJ" - uma pessoa trocando CD's num radinho CCE - colocou intercalava "Rebolation" e "Vou não quero não" com alguma música da moda - um pagode ou sertanejo - e tocava uma das duas de novo. O pessoal cantava feliz da vida, e toda hora a mulherada saía da "pista" pra ir no banheiro passar Kolene. E algumas mães também chamavam as filhas pra passar creme na hora de sair nas fotos.
Depois de muito sofrimento, finalmente veio a hora do Parabéns: a criançada correu pra volta da mesa que nem cachorro perseguindo São Lázaro, e eu nem consegui ver o bolo chegar. Cantaram o Parabéns, e aquela parte super irritante do "Derrama Senhor", e um "irmão" resolveu fazer um discurso religioso sobre salmos e feitos divinos que o pessoal começou a gritar "Glória a Deus".
Após os discursos, musiquinhas, fotos, etc, finalmente partiram o bolo e, quando eu consegui atravessar aquela maré de gente com perfume enjoativo e desodorante alma de flores - sim, esse mesmo! -, veio a minha decepção: o pessoal começou a sair já com os pacotinhos embrulhados, só tinha um fatisco de bolo. Eu, que adoro bolo de aniversário, estava só esperando pra experimentar, pois vi pela janela que estava bonitinho e parecia gostoso. Daí fui até a mesa e perguntei se ainda tinha bolo, e a mesma mulher - que estava fritando os salgadinhos, agora partindo o bolo - disse que "Não, nem, ja cabô". Os docinhos, então, não duraram nem 5 minutos, só tinha forminha.
Veio a torta salgada, e um novo tumulto começou em volta da mesa. Resolvi experimentar, com um pouco de frustração por não ser o bolo que eu esperava. Quando comi, quase tive um troço. A torta, torta no sentido literal - pendia pra um lado -, era só milho e pão de forma, fazia um salseiro do cacete no guardanapo quando a gente mordia, e ainda fedia a chulé. Mano, por que eu fui comer aquilo lá? A tontura foi instantânea, e eu baixei a cabeça pra não piorar. Talvez viajar de pau-de-arara no sertão seja menos enjoativo do que aquela "chulezeira".
A dona "Creidineuza", vendo que eu tinha deixado metade no guardanapo, chegou e perguntou baixinho se eu não queria bolo. "Que legal, não vou embora sem comer bolo!", pensei. Mesmo com enjôo, queria muito provar o bolo, e quem sabe o doce não faria bem? Só que na hora que ela me trouxe o bolo, eu tive uma nova decepção, dessa vez a maior: era recheado com pêssego e maçã, e passas. Cara, como eu odeio bolo assim, não acredito que esperei pra comer aquilo.
Vi um cachorro que estava comendo parte da pelanca do lado da churrasqueira e dei o bolo pra ele. Me despedi e fui embora correndo, e, de quebra, ainda vejo a boneca bonita que eu comprei pra menina na mão de outra garota, sendo arrastada pelos cabelos no chão de concreto, no meio dos lixos de festa. Meu amor ao meu dinheiro nunca vai me deixar esquecer disso, e eu _NUNCA_ mais deixo presente em caixa de festa infantil.
Depois dessa festa, fiquei de cama 2 dias, devido à "aventura gastronômica" - agora me ocorreu um pensamento sobre a séria probabilidade de muitos salgados terem sido feitos com ingredientes japoneses contaminados, tendo em vista a queda de preços dos alimentos devido ao nível de radiação nuclear! - e com um sério abalo psicológico depois da overdose de "Rebolation" e "vou não quero não".
Isso tudo me fez pensar, o problema não é a festa de pobre, não tenho nada contra. Mas já que o Governo é tão assistencialista e dá bolsa Família, bolsa escola, bolsa esporte, bolsa Joãozinho, etc, a Dona Dilma podia criar o "Bolsa Festa" também, pra tornar as comemorações de baixa renda menos caóticas e melhorar a qualidade "das comidinhas" sem causar diarréia nos convidados - que no dia seguinte vão lotar os hospitais públicos. Pelo menos não importariam refrigerante de Fukushima, e contratariam um bom buffet para evitar o caos - e não uma tiazinha suada e de barriga de fora fritando salgadinho, e que ainda chama os outros de "nem"!
E ficam as dicas para essas ocasiões:
-SEMPRE leia os rótulos do que você vai beber.
-Olhe para as outras mesas e observe a reação dos convidados ao comer o que está sendo servido antes de se aventurar. É HORRÍVEL a frustração de criar expectativa sobre uma comida ruim!
-Pense bem antes de deixar o presente em qualquer lugar. É revoltante quando destroem algo em que você gastou seu lindo dinheiro.
-Leve os fones! Eles te salvarão de possíveis traumas psicológicos.
Sim, eles podem salvar sua vida!
Sem mais, isso é tudo por hoje! Tchau e não-benção!


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